Quando a verdade não é acessível, a mentira ganha espaço nas eleições do Piauí

Posts sem descrição, vídeos sem Libras, debates sem audiodescrição e checagens inacessíveis impedem milhares de pessoas com deficiência de comparar propostas, reconhecer conteúdos falsos e exercer o voto informad
Uma informação falsa começa a circular nas redes sociais afirmando que determinado direito eleitoral foi suspenso. A publicação se espalha rapidamente por grupos de mensagens, áudios e vídeos. Horas depois, uma instituição pública divulga o desmentido. A resposta, porém, aparece apenas em uma imagem carregada de texto e sem descrição.
Para uma pessoa cega que utiliza leitor de tela, a correção oficial pode ser apenas um arquivo inacessível. A mentira chegou. A verdade ficou pelo caminho.
Em outra situação, um vídeo manipulado atribui a uma autoridade uma declaração que ela nunca fez. A checagem é apresentada em uma reportagem televisiva, mas não possui janela de Libras, legenda adequada ou versão acessível. A pessoa surda vê as imagens, mas não consegue acompanhar integralmente a explicação.
Novamente, o conteúdo falso alcança um público que a informação correta não consegue atingir.
Essas situações revelam uma dimensão ainda pouco debatida da acessibilidade eleitoral. Quando informações confiáveis, orientações públicas e conteúdos de checagem não são produzidos em formatos acessíveis, a desinformação eleitoral encontra mais espaço para circular, gerar dúvidas e influenciar decisões.
No Piauí, esse problema assume proporções especialmente graves. O estado possui o maior índice de analfabetismo entre pessoas com deficiência do país. Cerca de 38,8% das pessoas com deficiência são analfabetas, o que representa mais de 100 mil piauienses para quem uma campanha, uma nota oficial, um santinho ou uma checagem exclusivamente escrita podem simplesmente não existir.
A pergunta que precisa ser enfrentada por instituições públicas, partidos, candidaturas, emissoras e veículos de comunicação é direta:
Como um eleitor pode reconhecer uma mentira se a informação que a desmente não está disponível em um formato que ele consegue acessar?
A exclusão eleitoral começa antes do dia da votação
A acessibilidade nas eleições costuma ser associada à urna eletrônica, às rampas e à estrutura física dos locais de votação. Esses recursos são fundamentais, mas representam apenas uma parte do processo.
Antes de chegar à seção eleitoral, o cidadão precisa conhecer as candidaturas, compreender as propostas, acompanhar debates, comparar programas de governo, identificar conteúdos manipulados e saber quais direitos poderá utilizar no dia da eleição.
Esse percurso acontece nas redes sociais, em programas de rádio e televisão, entrevistas, debates, propagandas eleitorais, sites de candidaturas, aplicativos de mensagens, materiais impressos e conteúdos de checagem.
Quando esses espaços não oferecem acessibilidade, parte do eleitorado chega à urna sem ter recebido as mesmas informações disponibilizadas aos demais cidadãos.
A desigualdade política não começa no momento do voto. Ela começa durante a formação da escolha.
Garantir uma eleição acessível, portanto, não significa apenas preparar a urna e o local de votação. Significa assegurar que todas as pessoas tenham condições de acompanhar o debate público, avaliar propostas e construir sua decisão com autonomia.
Informação publicada nem sempre é informação acessível
Disponibilizar uma informação não significa necessariamente torná-la compreensível.
Além do elevado índice de analfabetismo, 63,1% das pessoas com deficiência do Piauí com 25 anos ou mais não concluíram o ensino fundamental. Apenas 7,4% chegaram ao ensino superior.
Uma orientação pode estar publicada no site de uma instituição e, ainda assim, continuar inacessível por utilizar linguagem excessivamente técnica, frases longas, termos jurídicos e explicações que exigem conhecimentos prévios.
Para que o direito à informação seja efetivo, o conteúdo precisa ser encontrado, acessado e compreendido.
Isso exige linguagem simples, organização clara das informações, exemplos concretos, versões em áudio e explicações objetivas. Não se trata de reduzir ou empobrecer o conteúdo, mas de apresentá-lo de uma forma que mais pessoas possam compreender e utilizar.
Informação acessível é aquela que chega, faz sentido e permite que o cidadão tome uma decisão.
Imagens sem descrição excluem pessoas cegas
A exclusão aparece diariamente nos cards, fotografias, gráficos e documentos publicados nas redes sociais.
O Piauí possui aproximadamente 167,6 mil pessoas com dificuldade para enxergar, mesmo utilizando óculos. Entretanto, apenas 6.151 eleitores aparecem identificados com deficiência visual no cadastro eleitoral.
Muitas pessoas cegas ou com baixa visão utilizam leitores de tela para acessar sites, aplicativos e redes sociais. Esses programas transformam os textos exibidos na tela em voz.
Quando uma informação importante é publicada somente dentro de uma imagem sem descrição, o leitor de tela pode anunciar apenas que existe uma “foto”, um “gráfico” ou uma “imagem”, sem apresentar o seu conteúdo.
Propostas de governo, datas, orientações, denúncias, tabelas e documentos tornam-se invisíveis.
Uma publicação pode alcançar milhares de seguidores e, ao mesmo tempo, permanecer completamente fechada para quem não consegue enxergá-la.
A descrição de imagens permite comunicar os elementos essenciais de uma publicação. Em uma campanha eleitoral, isso significa possibilitar que uma pessoa cega conheça uma proposta, identifique quem aparece em uma fotografia ou compreenda os dados apresentados em um gráfico.
O problema se torna ainda mais grave nos conteúdos de enfrentamento à desinformação.
Uma checagem pode utilizar duas fotografias para demonstrar que uma delas foi manipulada. Se as diferenças entre as imagens não forem descritas, a pessoa cega recebe apenas parte da explicação e pode continuar exposta à versão falsa.
Uma checagem sem acessibilidade pode desmentir uma mentira para alguns e mantê-la viva para outros.
Vídeos sem Libras e legenda deixam pessoas surdas fora do debate
Para as pessoas surdas, as principais barreiras aparecem nos vídeos, entrevistas, transmissões ao vivo e debates eleitorais.
O Piauí possui aproximadamente 50 mil pessoas com deficiência auditiva, mas somente 2.820 eleitores estão identificados nessa condição no cadastro eleitoral.
Para uma parcela da comunidade surda, a Língua Brasileira de Sinais — Libras é a principal forma de comunicação. Para outras pessoas, a legenda é indispensável.
Apesar disso, muitos conteúdos políticos continuam sendo publicados sem qualquer recurso de acessibilidade.
Vídeos curtos apresentam falas rápidas, músicas, cortes sucessivos e informações que permanecem na tela por poucos segundos. Sem legenda adequada, parte do público não compreende o que está sendo dito.
Em debates e entrevistas, a ausência de Libras impede que eleitores acompanhem integralmente as perguntas, respostas, críticas e propostas apresentadas pelas candidaturas.
As legendas automáticas, embora úteis em determinadas situações, também não substituem uma revisão cuidadosa. Elas podem alterar nomes, números, locais e expressões, especialmente quando há ruídos, sotaques regionais ou várias pessoas falando ao mesmo tempo.
Em uma disputa eleitoral, um erro aparentemente pequeno pode mudar completamente o sentido de uma declaração.
Por isso, conteúdos políticos e eleitorais precisam contar com legendas revisadas, interpretação em Libras e uma produção pensada desde o início para alcançar diferentes públicos.
Sem audiodescrição, parte da mensagem permanece invisível
A audiodescrição transforma informações visuais relevantes em palavras.
Em um debate eleitoral, expressões dos participantes, documentos apresentados, gráficos, mensagens exibidas na tela e imagens utilizadas como argumento podem ser importantes para compreender o contexto.
Em uma checagem, a comparação entre duas imagens pode ser a principal prova de que um conteúdo foi manipulado.
Sem audiodescrição, a pessoa cega recebe apenas aquilo que é falado. Parte da mensagem permanece inacessível, e o eleitor precisa depender da interpretação de terceiros para compreender o conteúdo.
Essa dependência compromete a autonomia e o princípio do voto informado.
Uma eleição só é plenamente democrática quando todos conseguem compreender as informações que orientam sua escolha.
A desinformação ocupa os vazios deixados pela comunicação inacessível
A desinformação não se fortalece apenas porque circula rapidamente. Ela também avança porque a informação confiável muitas vezes demora, utiliza uma linguagem difícil ou não pode ser acessada por todos.
Uma mentira pode chegar em formato de áudio por um aplicativo de mensagens, enquanto o desmentido é publicado apenas em um texto longo.
Um vídeo falso pode utilizar uma linguagem simples e emocional, enquanto a resposta oficial aparece em uma nota técnica incompreensível.
Uma imagem manipulada pode circular em grupos populares, enquanto a checagem permanece em um site incompatível com leitores de tela.
Nesse cenário, a informação falsa ocupa o espaço deixado pela comunicação pública inacessível.
Não basta que a informação correta exista. Ela precisa circular em formatos que permitam disputar atenção, compreensão e confiança com os conteúdos falsos.
Quando uma mentira chega por áudio, a resposta também precisa estar disponível em áudio. Quando a manipulação circula em vídeo, o desmentido deve contar com legenda, Libras e audiodescrição. Quando a informação envolve termos técnicos, é necessário apresentar uma versão em linguagem simples.
Direito não comunicado de forma acessível é um direito que não alcança todas as pessoas.
Inteligência artificial amplia os riscos eleitorais
O avanço da inteligência artificial torna o problema ainda mais urgente.
Áudios, imagens e vídeos manipulados estão cada vez mais sofisticados. Um conteúdo pode reproduzir a voz e o rosto de uma pessoa, apresentar uma declaração inexistente ou retirar uma fala verdadeira de seu contexto original.
Os chamados deepfakes eleitorais podem confundir eleitores, prejudicar reputações e alterar o debate público.
Para se proteger, o cidadão precisa receber explicações rápidas e confiáveis sobre o que foi alterado, qual é a fonte original e como verificar a informação.
Essas respostas precisam estar disponíveis em texto acessível, áudio, Libras, legenda, audiodescrição e linguagem simples, de acordo com o formato e com o público.
A acessibilidade, portanto, não deve ser tratada apenas como política de inclusão. Ela também é uma estratégia de proteção da integridade eleitoral.
Quando grupos inteiros ficam isolados das informações oficiais, aumenta a possibilidade de que conteúdos manipulados influenciem suas escolhas e enfraqueçam a confiança no processo democrático.
Campanhas eleitorais precisam assumir responsabilidade
Partidos e candidaturas possuem responsabilidade direta na construção do ambiente informacional das eleições.
Uma campanha que não descreve imagens, não legenda vídeos, não oferece Libras e mantém um site incompatível com leitores de tela impede que parte da população conheça suas propostas.
A acessibilidade não deve ser adicionada somente depois que o conteúdo está pronto. Ela precisa estar presente no planejamento, no roteiro, na gravação, na edição e na distribuição.
Produzir primeiro e adaptar depois geralmente resulta em materiais incompletos, caros ou pouco funcionais.
Uma campanha eleitoral acessível deve considerar, desde o início, recursos como descrição de imagens, legendas revisadas, Libras, audiodescrição, versões em áudio, linguagem simples, contraste adequado e compatibilidade com leitores de tela.
A comunicação acessível começa quando as pessoas com deficiência são reconhecidas como parte real e relevante do eleitorado.
Emissoras, imprensa e agências de checagem também têm responsabilidade
Emissoras de rádio e televisão, portais de notícias e veículos digitais ocupam uma posição decisiva na formação da opinião pública.
Debates, entrevistas e sabatinas são espaços nos quais os eleitores podem comparar projetos e avaliar o comportamento dos candidatos. Quando esses conteúdos não são acessíveis, uma parcela da população fica excluída dos momentos mais importantes da campanha.
A responsabilidade também alcança as iniciativas de checagem de fatos.
Uma verificação não pode ser considerada plenamente eficiente quando protege apenas quem consegue enxergar uma imagem, ouvir um vídeo, compreender uma linguagem técnica ou navegar pelo site utilizado na publicação.
Antes de divulgar uma checagem, é necessário verificar se o vídeo possui legenda revisada, se as imagens estão descritas, se os gráficos podem ser compreendidos por leitores de tela, se existe versão em áudio e se a conclusão foi apresentada de maneira clara.
Combater a desinformação também exige garantir acessibilidade.
Monitoramento pode revelar barreiras e orientar mudanças
Uma análise responsável da acessibilidade eleitoral deve acompanhar conteúdos publicados por candidaturas, partidos, emissoras, instituições públicas e agências de checagem.
O monitoramento precisa observar a presença de legendas, Libras, audiodescrição, descrição de imagens, linguagem compreensível, versões em áudio e compatibilidade com leitores de tela.
Também é possível apresentar o mesmo conteúdo em duas versões: uma original e outra acessível.
Um card sem descrição pode ser comparado a uma publicação com texto alternativo e versão em áudio. Um vídeo sem legenda pode ser confrontado com outro que ofereça legendas revisadas e Libras.
Pessoas cegas, surdas, com deficiência intelectual ou baixa escolaridade podem avaliar o quanto compreenderam, quais dúvidas permaneceram, se identificaram a fonte e se conseguiriam utilizar aquela informação para tomar uma decisão.
Esse tipo de experiência mostra que a acessibilidade não se resume à presença de um recurso técnico. O objetivo é garantir que a comunicação realmente funcione para quem precisa dela.
O monitoramento também não deve servir apenas para apontar falhas. Ele pode identificar boas práticas, orientar correções e produzir recomendações para eleições futuras.
Quando uma instituição é comunicada sobre uma barreira e corrige o conteúdo, há um resultado concreto de participação e controle social.
Informação acessível é condição para uma democracia verdadeira
A democracia pressupõe que todos os cidadãos tenham condições de formar suas próprias escolhas.
Isso não acontece quando uma parte do eleitorado recebe propostas, entrevistas, debates e checagens completas, enquanto outra recebe apenas fragmentos.
Uma pessoa pode comparecer ao local de votação, utilizar os recursos da urna e registrar seu voto. Ainda assim, sua decisão pode ter sido formada em um ambiente profundamente desigual, no qual a mentira circulou com mais facilidade do que a verdade.
No estado em que mais de 100 mil pessoas com deficiência podem não acessar conteúdos exclusivamente escritos, insistir em campanhas baseadas apenas em textos significa manter uma parcela expressiva da população fora da disputa de ideias.
Informação inacessível não é apenas comunicação incompleta. É desigualdade política.
E quando a informação verdadeira não consegue chegar a todos, a mentira encontra o caminho livre para influenciar o voto, enfraquecer a confiança nas eleições e comprometer a própria democracia.
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