Inclusão não deve ser slogan: pesquisa da Comradio revela barreiras de pessoas com deficiência visual nas igrejas católicas

Levantamento coordenado por Iraildon Mota aponta que 52% das pessoas com deficiência visual deixam de frequentar igrejas por falta de acessibilidade comunicacional
“A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos econômicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viajantes indiferentes que passam ao largo.”
A reflexão da Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, ajuda a iluminar um desafio ainda pouco enfrentado nos espaços religiosos: a inclusão real de pessoas com deficiência visual na vida comunitária da Igreja.
No Piauí, estado marcado por uma forte tradição católica, esse debate ganha urgência. Segundo dados apresentados pela ONG Comradio, 85,35% da população piauiense se declara católica. Isso representa uma parcela expressiva de pessoas que participam de missas, celebrações, romarias, encontros pastorais e atividades comunitárias. No entanto, para muitos fiéis com deficiência visual, a experiência religiosa ainda é atravessada por barreiras de comunicação, acolhimento e acessibilidade.
Uma pesquisa realizada pela ONG Comradio, com apoio da Fundação Interamericana e coordenação do professor Iraildon Mota, revelou que 52% das pessoas com deficiência visual entrevistadas não frequentam igrejas católicas por falta de acessibilidade comunicacional, especialmente pela ausência de recursos como audiodescrição em missas, celebrações e eventos religiosos.
O levantamento foi realizado entre setembro de 2023 e janeiro de 2024, com 265 pessoas com deficiência visual de cinco estados brasileiros, com foco no Piauí.
Fé, pertencimento e barreiras invisíveis
A participação em uma comunidade religiosa vai além da presença física em uma celebração. Para muitas pessoas, a igreja é espaço de fé, convivência, acolhimento, escuta, formação e pertencimento.
Mas, quando uma pessoa com deficiência visual não consegue compreender plenamente uma celebração, identificar símbolos litúrgicos, acompanhar gestos, deslocar-se com segurança ou ser acolhida de maneira adequada, a exclusão se manifesta de forma silenciosa.
A pesquisa da Comradio mostra que a principal barreira não está apenas na arquitetura dos templos, mas na comunicação.
Entre os principais impedimentos para frequentar igrejas católicas, os entrevistados apontaram:

Os dados revelam que a ausência de acessibilidade comunicacional é o maior obstáculo. Em seguida, aparece o medo da exclusão social, demonstrando que a barreira também é emocional, relacional e comunitária.
“Inclusão de pessoas com deficiência não deve ser slogan”
Para o presidente da ONG Comradio, Iraildon Mota, a pesquisa evidencia que a inclusão precisa sair do campo do discurso e se transformar em prática concreta dentro das comunidades religiosas.
“Inclusão de pessoas com deficiência não deve ser slogan. A igreja é, por natureza, um espaço de acolhimento, mas acolher exige preparo, atitude e acessibilidade. Quando uma pessoa cega entra em uma missa e não consegue acompanhar o que está acontecendo, quando não há audiodescrição, orientação ou alguém preparado para acolher, essa pessoa pode até estar presente fisicamente, mas continua excluída da experiência comunitária”, afirma Iraildon Mota.
Segundo ele, a acessibilidade comunicacional é uma dimensão essencial da participação religiosa.
“A fé também passa pela comunicação. Os símbolos, os gestos, os ritos, os deslocamentos, as imagens e os momentos da celebração precisam ser acessíveis. Não se trata de favor, mas de direito. A pessoa com deficiência visual tem o direito de viver plenamente sua espiritualidade, sua pertença comunitária e sua participação na igreja”, destaca.
A maioria participaria mais se houvesse acessibilidade
A pesquisa também perguntou aos entrevistados se eles enfrentariam outras barreiras para participar das atividades religiosas caso as igrejas católicas tivessem uma comunicação mais acessível, como audiodescrição durante as missas.
O resultado foi expressivo:

Para a Comradio, esse dado mostra que muitas pessoas com deficiência visual desejam participar da vida religiosa, mas encontram barreiras que poderiam ser superadas com medidas acessíveis, planejamento e formação das equipes.
“Quando 82% das pessoas dizem que participariam se houvesse uma comunicação mais acessível, nós estamos diante de um chamado muito claro. As pessoas querem estar nas igrejas, querem participar, querem viver sua fé. O que falta é a instituição criar as condições necessárias para que essa presença seja plena, segura e respeitosa”, reforça Iraildon Mota.
O desafio da Igreja Católica no Piauí
O Piauí possui dioceses, paróquias, comunidades e pastorais espalhadas por todo o estado. A Diocese de Campo Maior, por exemplo, cobre uma área de mais de 28 mil km² e atende uma população estimada em aproximadamente 355 mil pessoas, segundo os dados apresentados no estudo.
Além disso, as dioceses estão integradas à Arquidiocese de Teresina, que coordena projetos sociais, educativos e pastorais em diferentes áreas. Apesar disso, a pesquisa aponta que ainda há carência de iniciativas diretamente voltadas à acessibilidade de pessoas com deficiência visual.
A inclusão desse público exige que as igrejas avancem em três frentes principais: comunicação acessível, formação de equipes e sensibilização das comunidades.
Audiodescrição pode transformar a experiência religiosa
Entre as principais recomendações da pesquisa está a implantação da audiodescrição em missas, celebrações e eventos religiosos.
A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que traduz, em palavras, informações visuais importantes para pessoas cegas ou com baixa visão. Em uma celebração religiosa, ela pode ajudar a descrever gestos, símbolos, deslocamentos, imagens, ambientes, expressões e ações que fazem parte da vivência litúrgica.
Na prática, isso permite que a pessoa com deficiência visual acompanhe melhor a celebração e participe com mais autonomia.
Além da audiodescrição, o estudo recomenda a produção de materiais acessíveis, como folhetos em braille, arquivos em áudio, QR codes com informações sonoras, sinalização adequada e descrições acessíveis dos espaços.
Comradio atua há mais de duas décadas com comunicação e acessibilidade
Fundada por Iraildon Mota há 21 anos, a ONG Comradio atua na promoção da educação, comunicação social, inclusão e acessibilidade. Nos últimos 16 anos, a organização tem se especializado em acessibilidade comunicacional, desenvolvendo metodologias e tecnologias para garantir o acesso de pessoas com deficiência visual a conteúdos, eventos, produções audiovisuais e espaços públicos.
Entre as iniciativas da instituição está o SONORI, sistema que facilita o acesso à informação por meio de QR codes com conteúdos acessíveis para pessoas com deficiência visual.
A Comradio também realiza formações, cursos e consultorias voltadas à comunicação acessível, fortalecendo a inclusão em diferentes áreas da sociedade.
Recomendações para igrejas mais acessíveis
A pesquisa apresenta caminhos práticos para que igrejas católicas se tornem espaços mais inclusivos. Entre as principais recomendações estão:
- Implantar audiodescrição em missas e eventos religiosos, permitindo que pessoas com deficiência visual acompanhem melhor as celebrações.
- Produzir materiais acessíveis, como folhetos em braille, conteúdos em áudio, arquivos digitais compatíveis com leitores de tela e QR codes informativos.
- Capacitar padres, agentes pastorais, voluntários e equipes de acolhida para receber pessoas cegas ou com baixa visão com respeito, segurança e autonomia.
- Melhorar a acessibilidade física dos espaços, com organização interna, retirada de obstáculos, sinalização adequada, pisos táteis e orientação segura.
- Promover campanhas de sensibilização nas comunidades, estimulando uma cultura de acolhimento, respeito e participação.
- Construir parcerias com organizações especializadas em acessibilidade, para apoiar diagnósticos, formações e implementação de soluções.
Inclusão como compromisso de fé e cidadania
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, nº 13.146/2015, estabelece que a acessibilidade é condição para o exercício de direitos e liberdades fundamentais. No contexto religioso, isso significa garantir que pessoas com deficiência também possam exercer plenamente sua liberdade de crença, participação comunitária e vivência espiritual.
Para a Comradio, a inclusão nas igrejas não deve ser vista como uma pauta secundária, mas como expressão concreta da missão de acolher.
“Quando uma comunidade se prepara para receber uma pessoa com deficiência visual, ela não está apenas adaptando um espaço. Ela está dizendo que aquela vida importa, que aquela presença é desejada e que a fé precisa ser vivida por todos. A inclusão começa quando deixamos de passar ao largo e decidimos caminhar junto”, conclui Iraildon Mota.
A pesquisa aponta um caminho claro: a inclusão de pessoas com deficiência visual nas igrejas católicas depende de decisões práticas, formação e compromisso. Mais do que abrir portas, é preciso garantir participação plena.
Afinal, como lembra a Fratelli Tutti, todos os dias a sociedade é chamada a escolher entre a indiferença e o cuidado. No caso das pessoas com deficiência visual, essa escolha passa também pela forma como as igrejas comunicam, acolhem e incluem.
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